Eu não cansei foi agora, eu já havia cansado antes.

Apaguei minhas redes sociais.
Eu já vivi um bom tempo sem redes sociais. Foi em 2011,quando voltei pro Brasil pra me tratar. A minha saída do CSS (zzzzzz) foi aquela coisa horrorosa que quase todo mundo sabe e me fez apagar tudo: twitter (com quase dez mil seguidores), facebook (tinha atingido o limite de “amizades”), instagram (mais de dez mil seguimores). Eu desconhecia 99% dessas pessoas que me seguiam por me considerarem “famoso digno de ter na minha coleção de figurinhas pseudo famosas acessíveis que vão me agregar certo valor”. Obviamente eu não agia de acordo com quem aquela gente achava que eu devia ser e diariamente eu acabava por ter de mandar uma quantidade imensa de desconhecidos a merda. A fan base brasileira da ex banda era aquela coisa pavorosa de miseráveis sedentos por atenção. “SOU SEU FÃ, VOCÊ ME DEVE ATENÇÃO”. Pra cima de mim não, apenas não. Se aquela gente te dá atenção, busquem isso a elas. Aqui só peço seu silêncio.
Nos anos noventa a frase de efeito dos meus blogs era “LEU PORQUE QUIS” e meus blogs não tinham caixa de comentário. Eu simplesmente nunca quis saber o que pensavam as pessoas que liam as merdas que eu escrevia, me era indiferente e acima de tudo, eu achava que seria ultrajante deixar alguém vir interagir comigo depois de ter tanta informação a meu respeito. What am I, some attention whore playing difficult? Eu não escrevia aquelas coisas pra fazer amizade, não me interessava se alguém havia se identificado com aquilo, se havia gostado ou não, se tinha algo a dizer a respeito. Não era uma via de mão dupla. Eu estava me expressando pra tirar coisas da minha cabeça, precisava arejar. Havia quem lesse e era muita gente, lá por 2003 meu blog tinha uma média de duas mil lidas por post e eu estava cagando pra aquilo.
E enquanto a gente tava ocupado pagando as contas, o mundo foi mudando, foi piorando paulatinamente e aqui estamos. Abduzidos pelo telefone, viciados em notificações, rodeado de interações e solitários como nunca, preto e branco porém com cores, quem lembra? Normalizamos vivermos afogados em confirmações de mensagens lidas e ignoradas enquanto nos colocamos disponíveis a todo momento para qualquer um que não deseje interagir conosco de forma alguma, nunca. Todos nós, todos mesmos. É como se a Gal Costa estivesse a todo momento passando na janela da minha casa e eu pudesse gritar algo pra ela. “Gal!”. E tudo que se ouve ao por a cabeça pra fora da janela é uma enxurrada de Gals. Qual “Gal!” será responsável por uma reação dela? Pra quem ela vai olhar e quem sabe, responder? Me note, Gal! Me note, você. Eu preciso que você reaja, me prove que não morri…
Nos meus perfis antigos das redes sociais, primeiro as pessoas tentavam chamar minha atenção com elogios e obviedades. Era tanto constrangimento que eu sofria que, pouco a pouco, passaram a me ofender. A presunção me enjoava, era muita intimidade esfregada na minha cara pra uma pessoa com pavor a intimidade como eu. Quando você me olha eu tenho certeza de tudo que eu não queria ser, não quero lidar com isso agora, não me repare. Olha a Gal.
Enquanto isso, ruiram as relações interpessoais. Ruiu a paz de espírito, o bom senso, o amor próprio. E daí foi-se a democracia. E os egos cada vez mais inflados gritando por atenção, construção narcisista e egoísta desse folclórico eu apocalítico, suicida e hiperativo que de tão claro se fez transparente, fedido de senso comum, que simplesmente não se importa. Porque ele está confortável, por gentileza, não o incomode, não peça para ele instalar outro aplicativo de troca de mensagens.
Eu não. Longe de mim querer manter contato. Tenho pavor disso.

Aqui está uma música para você…
Alprazolam, de Adriano Cintra.

https://open.spotify.com/track/4AAGASLnUFCA5bNAPlCj3k?si=8xKS_ZcvQcKkDPkBfTd2Cw

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